Festa no céu

As datas me fogem a memória
Faltam-me números para somar os anos que você completaria hoje
Porque tudo, sempre, se resume a letras e não a números: saudade.

Lembro-me de tudo.
O pé de acerola, com sua copa cheia e galhos que despontavam em todas as direções cutucam a memória
Suas folhas fazem coçar as lembranças

Chegava da escola
Aprontava a sacola com brinquedos e cortava caminho por aquela trilha, apagada hoje pelas novas famílias que preenchem o bairro

Buscava o penoar no quarto e o jogava por sobre você – o vento fazia subir o cheiro de arruda – porque cochilo pede aconchego e você sentia muito frio.

Sentava no tapete da sala.

A suas mãos iam imediatamente para a frente dos olhos
Sorria e avisava:

Eles já estão aqui para brincar com você.

Brincava horas a fio
Conversava com o invisível
Ficava brava
Até que cansava de brincar

Assistíamos desenho
Você passava o café e pegava o potinho com alguma coisa gostosa pra eu levar

Me confidenciava as coisas que só os seus olhos viam
Os meus arregalavam de medo
Na certa, naquela noite eu precisaria de um foco de luz no meu quarto
E mesmo assim custaria a dormir.

Queria te contar que fiz as pazes com o escuro
Não brado palavras ao vento
Mas escuto, em silêncio
Também fiz as pazes com o invisível.

Queria ler os meus textos pra você
Contar a rotina
Os planos
Ouvir música

Então hoje
Sou eu que passo o café
Pego o crustele
Ponho a mesa e espero você chegar.

Que horas você vem?

epifania II

Inspiração

Papel, caneta, grafite ou canetinha

O sentimento

A rima

O que cabe num poema?

A vida

O amigo

O relacionamento interrompido

O papel amaçado

A página em branco

Linhas e mais linhas preenchidas com observações sentidas

*

O estranho na rua

Uma conversa iniciada às pressas                                                        

Um incidente

Um acidente

Uma intenção

O acaso também pode se fazer presente

*

A rotina

Os dias

As noites

E as tardes que não são mais tão longas

Tanta vida acontece e pode ser musicada

Narrada

Ou contada

*

E em um desses dias

Acabo por ter uma breve epifania

Enquanto o aniversário de meu primo acontecia

Eu pensava em tudo o que a minha mãe sabia

E em quanto tempo ainda tenho com ela

Para aprender o que ainda não sei

*

E então

Do que é feita a poesia?

das coisas que fazem palpitar o coração

Banho de mangueira

Brincar a tarde inteira

Ouvir histórias

Assistir o desenho preferido

Comer bolacha depois da aula

Assistir incansavelmente o mesmo filme

O cheiro da arruda

O medo do escuro

O joelho ralado

A caneca quebrada

Ler à tarde inteira

Ir ao cinema

Tomar milk-shake na praça

Receber uma mensagem [in]esperada

Nadar

Ouvir a mesma música e não cansar

O cheiro da chuva

Um cover bem-feito

A primeira colherada do sorvete de limão

O vento no rosto em uma estrada reta

Ir a uma estreia

Café cremoso com canela

Reler um livro preferido

Um “lembrei de você” ao pé do ouvido

Maratonista Solar

Cabelos-penugem brancos

voo baixo

de passarinho cansado

que quando pousa

mostra o andar devagar

de quem já caminhou muito

muito rápido

e hoje já não precisa mais

com a passada calma, lenta

de quem já teve muita pressa

e agora já não tem mais.

Tem esmeralda no olhar

que embora verde, é maduro

olhar de quem já viu muito

e copa alta

que as vezes embaça a vista

com o sol que esconde.

Semeia palavras-amor

que já não são tão mais ditas.

Cultiva silêncio-afeto

transformado em gesto

que dá colo de vô.