Festa no céu

As datas me fogem a memória
Faltam-me números para somar os anos que você completaria hoje
Porque tudo, sempre, se resume a letras e não a números: saudade.

Lembro-me de tudo.
O pé de acerola, com sua copa cheia e galhos que despontavam em todas as direções cutucam a memória
Suas folhas fazem coçar as lembranças

Chegava da escola
Aprontava a sacola com brinquedos e cortava caminho por aquela trilha, apagada hoje pelas novas famílias que preenchem o bairro

Buscava o penoar no quarto e o jogava por sobre você – o vento fazia subir o cheiro de arruda – porque cochilo pede aconchego e você sentia muito frio.

Sentava no tapete da sala.

A suas mãos iam imediatamente para a frente dos olhos
Sorria e avisava:

Eles já estão aqui para brincar com você.

Brincava horas a fio
Conversava com o invisível
Ficava brava
Até que cansava de brincar

Assistíamos desenho
Você passava o café e pegava o potinho com alguma coisa gostosa pra eu levar

Me confidenciava as coisas que só os seus olhos viam
Os meus arregalavam de medo
Na certa, naquela noite eu precisaria de um foco de luz no meu quarto
E mesmo assim custaria a dormir.

Queria te contar que fiz as pazes com o escuro
Não brado palavras ao vento
Mas escuto, em silêncio
Também fiz as pazes com o invisível.

Queria ler os meus textos pra você
Contar a rotina
Os planos
Ouvir música

Então hoje
Sou eu que passo o café
Pego o crustele
Ponho a mesa e espero você chegar.

Que horas você vem?

Infância

Para ler ouvindo Night, do Ludovico Einaudi

Quando penso neste dia, o cheiro do produto que era utilizado no cabelo de minha avó me vem inconfundivelmente à memória, mesclado com o perfume do galho de arruda que sempre adornava sua orelha esquerda. Se me perguntassem que cheiro tem a minha infância, diria que tem cheiro de arruda fresca.

Fui dessas crianças que passava bastante tempo com os avós, mais por vontade do que por necessidade de fato. E durante essas tardes infinitas, às vezes chuvosas, às vezes ensolaradas, outras frias ou tempestuosas, os acompanhava em seus compromissos. Banco? “Deixa que a Bela vai junto”. Supermercado? “Vem com a vó ajudar a escolher mudas. Te compro um sorvete na volta” – o que de fato acontecia. Mas tinha um compromisso em especial que me deixava ansiosa, agitada, de prontidão na porta enquanto esperava o antigo corcel creme subir a avenida para me buscar: o dia do permanente.

Minha avó tinha o cabelo mais liso e fino que eu já tinha visto. E desejava que eles fossem volumosos e cacheados. Então eu e meu avô a acompanhávamos em seu empreito a cada quinze dias.

A cabelereira atendia em sua própria casa. E a casa por si só já era bem impressionante com seus muitos andares, escadas e corredores que te faziam chegar nos mesmos lugares, como passagens secretas. Mas não era por isso que eu gostava de ir lá. Aquela casa, que em minha memória parece maior do que ela de fato deve ser, abrigava um objeto que veio a ser fruto de meu desejo.

Quando o vi pela primeira vez, olhei-o rapidamente e voltei correndo para perto de minha avó. Na segunda vez, entrei pé ante pé na sala em que ele ficava, como se, caso eu ousasse andar normalmente, fosse despertá-lo.

Até que um dia sentei-me um pouco mais perto, como quando a gente quer fazer amizade com alguém, mas não sabe ao certo como chegar. Então fiquei em silêncio e ele também. Olhei seus pés, sua forma imponente e ao mesmo tempo convidativa. Arrisquei uma espiada em seu mecanismo ao rodeá-lo. Feita a volta completa e com um pouco de esforço, sentei-me no banco em frente a ele, pernas curtas com pés balançando. Tinha uma fechadura…será que estava trancado? Prendi a respiração, e com dedinhos ágeis, abri o que parecia ser uma tampa. Para a minha surpresa, deparei-me com o sorriso banguela mais bonito que já tinha visto. Passei os dedos por sobre as teclas, com medo de emitir algum som. Depois imaginei como seria saber o que fazer com tudo aquilo.

No caminho de volta para casa, minha avó contou que não faria mais o permanente ali, pois o produto estava dando alergia à aplicadora. Pensei em contar o que havia feito, mas decidi guardar segredo. Daquele delito, só eu e aquele sorriso saberíamos.

epifania II

Inspiração

Papel, caneta, grafite ou canetinha

O sentimento

A rima

O que cabe num poema?

A vida

O amigo

O relacionamento interrompido

O papel amaçado

A página em branco

Linhas e mais linhas preenchidas com observações sentidas

*

O estranho na rua

Uma conversa iniciada às pressas                                                        

Um incidente

Um acidente

Uma intenção

O acaso também pode se fazer presente

*

A rotina

Os dias

As noites

E as tardes que não são mais tão longas

Tanta vida acontece e pode ser musicada

Narrada

Ou contada

*

E em um desses dias

Acabo por ter uma breve epifania

Enquanto o aniversário de meu primo acontecia

Eu pensava em tudo o que a minha mãe sabia

E em quanto tempo ainda tenho com ela

Para aprender o que ainda não sei

*

E então

Do que é feita a poesia?

Do que é feita a maçã?

(ou ainda, do que falo quando falo de maçã)

         À primeira vista eu diria que tem casca vermelha ou verde, coloração mais ou menos vibrante e tamanhos variados – de acordo com a espécie ou qualidade dela, acredito. Existe aquela que vem em pacotes da Turma da Mônica e cujo tamanho é bem menor se comparado as comuns. E inevitavelmente associam essas minis maçãs a crianças, muito embora seu sabor seja azedo na maioria das vezes e a carne dela seja pouco saborosa, e o seu público, aquele que paga por elas efetivamente, e as consomem, seja formado majoritariamente por adultos. Há crianças que gostam também. Mas outras, tal qual os livros e a leitura, precisam aprender a gostar. Se faz necessário insistir. E algumas insistências são frutíferas.

Existem maçãs também que são tão, mas tão bonitas, tão grandes e carnudas que nos enganam completamente após a primeira mordida. Quando isso acontecia comigo, eu pensava logo em desprezá-las, beber um copo d’água por cima do gosto e ingerir algo um pouco mais doce e saboroso. Com o tempo, aprendi a não desprezar, mas ver onde aquilo poderia me levar. Será que abriria o meu apetite? Será que me satisfaria por um tempo? Será que seu eu comer mais de uma a fome passa, o sabor melhora, o ânimo vem? Ou será que devo simplesmente saborear nem que seja para me queixar depois? Mas a queixa, ah, a queixa, essa viria e com propriedade.

         Quando me vem a mente uma história nova, seja para um livro, uma crônica ou uma poesia, escrevo primeiro a mão no papel e à tinta para superar a vontade de apagar, e quando vejo o resultado do todo ou de um pequeno fragmento que seja e me sinto satisfeita com o que leio, logo me imagino em um desses programas de entrevista em que perguntam ao convidado, no caso autor, sobre as suas principais influências, obras preferidas, se sempre foi um leitor ou uma leitora voraz. E o ciúme, em se tratando das obras, tal qual um sabor amargo, azedo, permeia a ponta da minha língua, formiga os lábios e paira neles. Abro o jogo e falo ou guardo tudo para mim? Afinal, o meu livro publicado não é mais meu, é de quem lê, o significado que dei a ele se modificou quando o primeiro leitor passou a mão nele e leu as primeiras linhas. Seria justo fazer isso comigo em se tratando dos meus livros preferidos? Ora, são tão meus quanto os meus são deles. Então mudo de assunto e falo do processo de criação dos protagonistas, do diário que criei a mão para cada um deles e de como escrevia como se os dois, cada um a seu modo, me contassem o seu dia, o que sentem, seus medos, preferências, angústias e desgostos. Conto como decorei as páginas com adesivos, recortes, desenhos, rabiscos, ingressos fabricados de eventos que eles iriam se estivessem fora das páginas. Responderia como quando estou no supermercado escolhendo maçãs e perguntasse a um dos funcionários que repõe a fruta no estande, de onde elas vieram, se me indicaria alguma ou se só as trocaria de lugar, do mesmo jeito que fiz com a minha resposta e assim, me deixasse livre para escolher – e no meu caso, livre para que interpretem o que eu havia dito da forma que achassem melhor.

Fato é que eu nem sempre gostei de maçã. Comecei sim pelas da Turma da Mônica, pois via meu irmão, meus primos e primas saboreando-as e mostrando gostar do que ingeriam. Com o tempo passei a querer me nutrir delas também e percebi que o apetite só abria. Então passei a experimentar outras para ver se resolvia: gala, fuji, Argentina, verde. Sempre gostei mais do contraste da verde com a fuji, e essas passaram a ser as minhas preferidas. Ambas firmes, consistentes, refrescantes, emitem o som da crocancia a cada mordida. A primeira, um pouco mais doce, mas nada em excesso, e a segunda, ácida de lacrimejar os olhos.

Se um dia de fato essa entrevista se concretizar, direi que com o tempo, além de saborear o fruto, aprendi a dar outras formas a ele, sendo a torta minha forma preferida, com massa simples e que também precisa ser moldada com as mãos na forma antes de assar. Essa torta pode ser feita com maçãs de todas as qualidades, e que a minha, em constante aprimoramento, tem sempre um mesmo ingrediente em comum: maçãs verdes ou fuji.

Cotidiano

“Quando nada acontece, há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo”.

Guimarães Rosa

Essa frase ecoou em minha mente quando acordei. Fiz o habitual, com o horário cronometrado, antes de sair de casa. Comi rapidamente a omelete que deixo pronta no dia anterior, passei o café enquanto vestia o uniforme e colocava mais algum item importante na mochila. Cheguei à porta, voltei para pegar uma máscara. Uma não, várias. O dia vai ser longo, tem aula no período da tarde também.

Saio e vejo que o bairro ainda dorme. Nem amanheceu direito, mas já há vestígio de vida na rua. Escolho passar pelo viaduto que é mais iluminado. Abaixo a máscara e sinto o ar fresco. Puxo o ar pelos pulmões com força e aperto os passos. Avisto a escadas que preciso descer para chegar ao ponto de ônibus. Paro, olho o matagal que há atrás de mim. Não vejo nada. Solto o ar aliviada. Passa um carro. Dois. Três. Opa, minha vez. Aperto os passos, desço os degraus de dois em dois. Corro mais um pouco e vejo que me olham com olhos arregalados. Coloco a mão na face. “A máscara!” – penso alarmada.  Visto a máscara e dou bom dia para as poucas pessoas que estão ali, sempre as mesmas.

O ônibus chega, entro, dou bom dia ao motorista, que é o mesmo de todos os dias. Passo a catraca e me sento ao lado da senhora. A mesma de ontem. E a frase me vem a mente novamente, insistente: “quando nada acontece, há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo”. Que diacho isso quer dizer a essa hora da manhã?

No trabalho, redações, pendências, gerenciamento de conflitos entre os pequenos. Almoço. Ônibus. E no caminho de volta para a casa, a frase que me assolou a manhã toda não me vem a mente, mas a atividade do curso que estou fazendo, sim. Coloco os fones e logo os primeiros acordes de freebird preenchem meus ouvidos. Olho para o lado e reparo que o rapaz que acabou de se sentar próximo a mim tem lágrimas por trás de seus óculos. Estaria ele chorando ou apenas com sono? Ele desce antes de chegarmos a rodoviária. Sigo caminho e pego o segundo ônibus. Nele, penso mais uma vez em que tipo de conversa deveria reparar e em como faria isso. Até que o ônibus parte e ouço:

— Você que não tome cuidado não, ou vai acabar perdendo as crianças…

— Como você sabe? — imaginei a pergunta vinda do outro lado da linha.

— Os vizinhos reclamaram, encontrei com ele no ônibus e ele me disse. — continuou a moça em tom soturno.

Fiquei alarmada. Como será que ela sairia daquela situação? Olho pela janela e vejo um catador ajudar uma senhora. Volto minha atenção para dentro do ônibus e vejo uma mulher que acabara de passar pela catraca segurando um telefone na altura do rosto enquanto dá instruções:

— Você está vendo que tem a casa da centena e a da dezena? — diz a moça pacientemente — e continua — mas a da unidade está em branco? Então, Clarinha, é o número que vai aí que você precisa encontrar.

— Aham — responde a criança no outro lado da chamada — e depois?

— Depois, os outros exercícios são de continhas, é só você resolver — responde a moça calmamente, e a chamada se encerra.

Idosos entram nas próximas paradas, segurando sacolas, outros de mãos vazias, e para a minha surpresa, muitas pessoas se mobilizam e cedem seus lugares – o que deve ser feito por lei. Um rapaz pega carona e incomoda algumas pessoas. Me pergunto se usou alguma coisa ou se só é seu jeito de ser mesmo pelos seus trejeitos e modo de falar. Ele segura no suporte próximo ao banco em que estou, mas fico na minha, concentrada em minha música e ele me deixa em paz.

Canso de ouvir música e a frase da manhã volta a minha mente. Na última condução, mais lotada que de costume, rio antes de entrar. Algumas mulheres próximas a porta compartilham do meu riso e abrem espaço, logo me acomodo, em pé mesmo, e o ônibus parte. Uma moça, em específico, diz que logo vai descer e por esse motivo está perto da porta e no caminho de muitas outras pessoas. Observo que muitos pontos se passam e ela não desce. Rio para mim mesma por trás de minha máscara. Até que chega meu ponto e quando me viro para descer, uma senhora de estatura baixa, cabelos brancos e corpo franzino segurando um bebê olha para todos nós lá de fora, com expectativa, e a moça que não descera em nenhum dos pontos anteriores diz para todos ao redor:

— Deixa comigo que eu pego — passa a sua bolsa para uma outra mulher que está sentada nos bancos preferenciais, para em seguida estender os braços e pegar a criança; a entrega a outra moça sentada, que recebe o bebê com braços ágeis e expressão aliviada. Deve ser a mãe.

Olho tudo aquilo e penso que talvez esse seja o milagre do qual o poeta fala. E de fato, muito desse milagre, da própria vida, simples e pura, acontece a nossa volta, o tempo todo, só não estamos prestando a devida atenção.

das coisas que fazem palpitar o coração

Banho de mangueira

Brincar a tarde inteira

Ouvir histórias

Assistir o desenho preferido

Comer bolacha depois da aula

Assistir incansavelmente o mesmo filme

O cheiro da arruda

O medo do escuro

O joelho ralado

A caneca quebrada

Ler à tarde inteira

Ir ao cinema

Tomar milk-shake na praça

Receber uma mensagem [in]esperada

Nadar

Ouvir a mesma música e não cansar

O cheiro da chuva

Um cover bem-feito

A primeira colherada do sorvete de limão

O vento no rosto em uma estrada reta

Ir a uma estreia

Café cremoso com canela

Reler um livro preferido

Um “lembrei de você” ao pé do ouvido

Maratonista Solar

Cabelos-penugem brancos

voo baixo

de passarinho cansado

que quando pousa

mostra o andar devagar

de quem já caminhou muito

muito rápido

e hoje já não precisa mais

com a passada calma, lenta

de quem já teve muita pressa

e agora já não tem mais.

Tem esmeralda no olhar

que embora verde, é maduro

olhar de quem já viu muito

e copa alta

que as vezes embaça a vista

com o sol que esconde.

Semeia palavras-amor

que já não são tão mais ditas.

Cultiva silêncio-afeto

transformado em gesto

que dá colo de vô.