Cotidiano

“Quando nada acontece, há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo”.

Guimarães Rosa

Essa frase ecoou em minha mente quando acordei. Fiz o habitual, com o horário cronometrado, antes de sair de casa. Comi rapidamente a omelete que deixo pronta no dia anterior, passei o café enquanto vestia o uniforme e colocava mais algum item importante na mochila. Cheguei à porta, voltei para pegar uma máscara. Uma não, várias. O dia vai ser longo, tem aula no período da tarde também.

Saio e vejo que o bairro ainda dorme. Nem amanheceu direito, mas já há vestígio de vida na rua. Escolho passar pelo viaduto que é mais iluminado. Abaixo a máscara e sinto o ar fresco. Puxo o ar pelos pulmões com força e aperto os passos. Avisto a escadas que preciso descer para chegar ao ponto de ônibus. Paro, olho o matagal que há atrás de mim. Não vejo nada. Solto o ar aliviada. Passa um carro. Dois. Três. Opa, minha vez. Aperto os passos, desço os degraus de dois em dois. Corro mais um pouco e vejo que me olham com olhos arregalados. Coloco a mão na face. “A máscara!” – penso alarmada.  Visto a máscara e dou bom dia para as poucas pessoas que estão ali, sempre as mesmas.

O ônibus chega, entro, dou bom dia ao motorista, que é o mesmo de todos os dias. Passo a catraca e me sento ao lado da senhora. A mesma de ontem. E a frase me vem a mente novamente, insistente: “quando nada acontece, há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo”. Que diacho isso quer dizer a essa hora da manhã?

No trabalho, redações, pendências, gerenciamento de conflitos entre os pequenos. Almoço. Ônibus. E no caminho de volta para a casa, a frase que me assolou a manhã toda não me vem a mente, mas a atividade do curso que estou fazendo, sim. Coloco os fones e logo os primeiros acordes de freebird preenchem meus ouvidos. Olho para o lado e reparo que o rapaz que acabou de se sentar próximo a mim tem lágrimas por trás de seus óculos. Estaria ele chorando ou apenas com sono? Ele desce antes de chegarmos a rodoviária. Sigo caminho e pego o segundo ônibus. Nele, penso mais uma vez em que tipo de conversa deveria reparar e em como faria isso. Até que o ônibus parte e ouço:

— Você que não tome cuidado não, ou vai acabar perdendo as crianças…

— Como você sabe? — imaginei a pergunta vinda do outro lado da linha.

— Os vizinhos reclamaram, encontrei com ele no ônibus e ele me disse. — continuou a moça em tom soturno.

Fiquei alarmada. Como será que ela sairia daquela situação? Olho pela janela e vejo um catador ajudar uma senhora. Volto minha atenção para dentro do ônibus e vejo uma mulher que acabara de passar pela catraca segurando um telefone na altura do rosto enquanto dá instruções:

— Você está vendo que tem a casa da centena e a da dezena? — diz a moça pacientemente — e continua — mas a da unidade está em branco? Então, Clarinha, é o número que vai aí que você precisa encontrar.

— Aham — responde a criança no outro lado da chamada — e depois?

— Depois, os outros exercícios são de continhas, é só você resolver — responde a moça calmamente, e a chamada se encerra.

Idosos entram nas próximas paradas, segurando sacolas, outros de mãos vazias, e para a minha surpresa, muitas pessoas se mobilizam e cedem seus lugares – o que deve ser feito por lei. Um rapaz pega carona e incomoda algumas pessoas. Me pergunto se usou alguma coisa ou se só é seu jeito de ser mesmo pelos seus trejeitos e modo de falar. Ele segura no suporte próximo ao banco em que estou, mas fico na minha, concentrada em minha música e ele me deixa em paz.

Canso de ouvir música e a frase da manhã volta a minha mente. Na última condução, mais lotada que de costume, rio antes de entrar. Algumas mulheres próximas a porta compartilham do meu riso e abrem espaço, logo me acomodo, em pé mesmo, e o ônibus parte. Uma moça, em específico, diz que logo vai descer e por esse motivo está perto da porta e no caminho de muitas outras pessoas. Observo que muitos pontos se passam e ela não desce. Rio para mim mesma por trás de minha máscara. Até que chega meu ponto e quando me viro para descer, uma senhora de estatura baixa, cabelos brancos e corpo franzino segurando um bebê olha para todos nós lá de fora, com expectativa, e a moça que não descera em nenhum dos pontos anteriores diz para todos ao redor:

— Deixa comigo que eu pego — passa a sua bolsa para uma outra mulher que está sentada nos bancos preferenciais, para em seguida estender os braços e pegar a criança; a entrega a outra moça sentada, que recebe o bebê com braços ágeis e expressão aliviada. Deve ser a mãe.

Olho tudo aquilo e penso que talvez esse seja o milagre do qual o poeta fala. E de fato, muito desse milagre, da própria vida, simples e pura, acontece a nossa volta, o tempo todo, só não estamos prestando a devida atenção.

2 comentários em “Cotidiano

  1. Por que será que ele estava correndo risco de perder as crianças? O que os vizinhos escutaram?

    Essa parte deixou meu coração apertadinho…

    Seu texto passa emoção. arrasou, Iza!

    Beijos, Man

    Curtido por 1 pessoa

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